Reconhecimento das Ciências Indígenas como elo entre mundos

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Do sonho cartesiano da razão pura ao universo mecânico de Newton, o espiritual foi exilado do domínio da ciência. No entanto, as ciências ancestrais cultivaram, por milênios, metodologias sofisticadas para trabalhar com espírito, energia e matéria como expressões inseparáveis da Vida. Hoje, à medida que as pesquisas sobre consciência e a física quântica expandem os limites do que a ciência pode imaginar, o mundo é chamado a reconhecer como as ciências ancestrais da Vida foram historicamente excluídas da legitimidade científica, apesar de sua profundidade, precisão e robustez.

vozes destacadas

Chris Timmermann
Neurocientista

Christopher Timmermann, PhD, é um neurocientista chileno radicado em Londres, vinculado ao University College London, onde sua pesquisa abrange neurociência, consciência e psicodélicos. Anteriormente, liderou a pesquisa sobre DMT no Imperial College London, onde conduziu os primeiros estudos de neuroimagem do DMT — o principal composto psicoativo da ayahuasca — em voluntários saudáveis. Seu trabalho explora os efeitos neurológicos das experiências psicodélicas e seu potencial de aplicação no tratamento da depressão, das dependências e do estresse pós-traumático.

Pashin Nima / Walter López
Presidente da ASOMASHK e Liderança Shipibo-Konibo

Panshin Nima Walter López é uma liderança Shipibo-Konibo. Nasceu e vive na Comunidade Nativa San Francisco, considerada uma das comunidades indígenas mais representativas da região, situada na margem esquerda da lagoa Yarinacocha, a aproximadamente 20 km a noroeste de Pucallpa. É professor de formação, médico ancestral, ativista e defensor da cultura shipibo, da ecologia e do meio ambiente. Atualmente é presidente da Asomashk, a asociación de onanyabo, médicos ancestrales shipibo-konibo), e se define como um eterno aprendiz da vida.

Dennis McKenna
Etnofarmacólogo, escritor e pesquisador de plantas visionárias

Dennis Jon McKenna (nascido em 1950, no Colorado, EUA) é um etnofarmacólogo, pesquisador e escritor reconhecido por seu trabalho pioneiro no estudo científico das plantas visionárias e por seu compromisso em construir pontes entre o conhecimento ancestral e a ciência moderna. Ao longo de mais de quatro décadas, dedicou sua vida a explorar a relação entre os seres humanos, as plantas sagradas e a consciência.

Formado em biologia e botânica, obteve seu doutorado na Universidade da Colúmbia Britânica, onde pesquisou a ayahuasca e outras preparações amazônicas. Trabalhou em instituições como o National Institute of Mental Health e a Universidade de Stanford, e é membro fundador do conselho do Heffter Research Institute, uma organização dedicada ao estudo científico dos psicodélicos em contextos terapêuticos e rituais. De 2001 a 2017, ministrou cursos de etnofarmacologia e de plantas na vida humana no Center for Spirituality and Healing do Academic Health Center da Universidade de Minnesota.

McKenna também foi um dos principais pesquisadores do Projeto Hoasca, o primeiro estudo biomédico sobre o uso da ayahuasca dentro da comunidade União do Vegetal, no Brasil. Desde 2019, dirige a McKenna Academy of Natural Philosophy, uma organização sem fins lucrativos (501(c)(3)) dedicada ao diálogo entre ciência, filosofia e sabedoria ancestral, promovendo uma nova relação entre a humanidade e a natureza. A Academia organizou e apresentou duas conferências históricas: Ethnopharmacologic Search for Psychoactive Drugs (ESPD50, em 2017, e ESPD55, em 2022). Ben De Loenen, diretor da ICEERS, foi editor colaborador dos anais de ambos os simpósios.

Autor de numerosos artigos científicos e livros — entre eles The Brotherhood of the Screaming Abyss, no qual relata sua vida ao lado de seu irmão Terence McKenna —, Dennis é considerado uma figura-chave no ressurgimento contemporâneo dos estudos psicodélicos. Sua obra une rigor acadêmico, visão espiritual e um profundo respeito pelas tradições indígenas que preservaram o conhecimento das plantas sagradas.

Emilia Sanabria
Antropóloga Médica e Professora

Emilia Sanabria é uma antropóloga franco-colombiana, formada no Reino Unido, que realizou trabalho de campo etnográfico no Brasil por mais de duas décadas. Sua pesquisa baseia-se na antropologia médica, antropologia da ciência e em teorias feministas e decoloniais, para examinar criticamente os encontros entre a ciência ocidental e os saberes Indígenas e tradicionais. Ela desenvolveu diversos projetos etnográficos sobre saúde sexual e reprodutiva, nutrição e justiça alimentar, bem como sobre as demarcações entre drogas e medicamentos.

Entre 2018 e 2024, liderou o projeto financiado pelo ERC Healing Encounters: reinventing an Indigenous medicine in the clinic and beyond. O projeto tomou os encontros como método e análise para estudar a prolífica reinvenção contemporânea das práticas de cura com ayahuasca. Perguntou o que significa curar quando se liberta das limitações dos quadros individualistas (ocidentais), situando isso em lutas por território, bem-estar coletivo e justiça de cura. Atenta às camadas históricas do colonialismo, Healing Encounters rastreou como a ayahuasca circula entre clínicas, laboratórios, cerimônias neotradicionais urbanas e territórios Indígenas. Examinou como as táticas do colonialismo continuam a extrair plantas e saberes de suas redes multisensoriais de relações.

Seu próximo livro tem título provisório: Ayahuasca is not a psychedelic: Caring for encounters in the wake of ethno-humanism.

Seu projeto atual, PhytoEncounter: Living Labs for more-than-human research, desenvolve protocolos experimentais para pesquisar com — e não sobre — plantas, em colaboração com cientistas Indígenas e praticantes tradicionais. Este trabalho amplia seu compromisso de longo prazo com metodologias especulativas e participativas orientadas ao cuidado radical e à construção de futuros alternativos. Além disso, Emilia co-lidera o hub CERMES3 Health in the Age of the Global Environmental Crisis e faz parte do Conselho de Ética em Humanidades e Ciências Sociais do CNRS, bem como do seu comitê de antropologia.

Adana Omágua Kambeba
Médica e Liderança Omágua Kambeba

Adana Omágua Kambeba liderança do Povo Kambeba (Omágua, “Povo das Águas”), originária do Amazonas. Foi a primeira Indígena da Amazônia a se formar em Medicina pela UFMG e a primeira mulher de seu povo a obter tal feito no Brasil. Destaca-se por ser a primeira médica no país a registrar oficialmente ambos os nomes (Indígena e Português) em sua carteira profissional e nos registros do Conselho Federal de Medicina (CFM).

Adana também inovou ao compor uma comissão do CFM para integração entre a Medicina Tradicional Indígena e a Científica. Atua no campo da Medicina de Família e Comunidade, saúde da mulher e parto humanizado, além de ser “Prescritora de Cannabis” e atuar em discussões sobre a medicina ancestral com a Psychedelic Parenthood Community e a Conferência Indígena da Ayahuasca.

Atualmente, em formação xamânica, busca promover o diálogo entre as medicinas tradicional e ocidental para a saúde Indígena e atua como educadora, palestrante e conselheira espiritual.

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